quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Thiago: ‘Sinto muita culpa’

Aos 36 anos, o ator afirma que a maturidade o deixa mais seguro para interpretar o vilão Marcos, de ‘Alto astral’

Ator falou do desejo de estar mais com os filhos

 



Ao atravessar os corredores dos estúdios da Globo, em Jacarepaguá, no Rio, para ser fotografado para esta reportagem, Thiago Lacerda provoca um debate acalorado entre dois funcionários da limpeza do Projac.
— Ele é um cara bonito, ? — elogia um deles.
— E eu sou lá de achar homem bonito, rapaz? — rebate o outro.
Ao saber da história, o ator de 36 anos, que interpreta o vilão Marcos na novela “Alto astral”, completa:
— Eu me acho bonito sim, não tenho problema com isso. Mas tem dias em que me olho no espelho e falo: “não, ?”. Às vezes, me incomodo com o meu nariz. Dependendo do ângulo, ele fica grande demais.
Mas a beleza não é uma questão muito importante, diz o ator. Apontado como galã desde a época de “Terra nostra” (1999), Thiago nunca se acomodou a um único tipo.
— Devo ter perdido alguns papéis por ser muito bonito, mas isso não me incomoda.
Os quase dois metros de altura, ele admite, às vezes causam problemas. O ator conta que grava suas cenas com as pernas abertas por causa da estatura de suas parceiras na ficção. A altura das atrizes com quem ele já contracenou oscila entre 1,58m e 1,70m. E ele tem exatamente 1,95m.
— Mas minto e digo que tenho 1,93m — brinca o ator, que no folhetim de Daniel Ortiz contracena com Nathalia Dill, de 1,68m. — Tenho vergonha, sempre tive. É trauma de adolescente. Sou mais alto do que todo mundo desde criança, os coleguinhas faziam piadas. Quem não passou por isso? Se não fosse pela altura, seria por ter espinhas ou por outra característica...
Thiago, que estreou na TV com um papel pequeno em “Malhação”, em 1997, e despontou como o Aramel da minissérie “Hilda Furacão” (1998), já apareceu como malvado nas novelas “As filhas da mãe” (2001) e “América” (2005). Mas diz que o vilão que faz em “Alto astral” chegou em um momento especial.
— Desta vez, tem um certo amadurecimento da minha parte. A minha profissão é feita do tempo. Aos 36, eu sou um ator mais interessante do que era há 10 anos. Isso me dá uma possibilidade mais lúcida de entendimento do personagem.
Hoje, o ator está até mais à vontade para dizer o que pensa, sem muitos filtros.
— O politicamente correto me incomoda. As pessoas têm dedos para falar, com medo de os outros se ofenderem. Adoro falar palavrão, fodam-se os que não gostam. Merda para mim é vírgula. Claro que não vou sair por aí falando besteira, mas tudo bem eu dizer que o Marcos é um escroto. Por que não?
O ciúme e a inveja que o cirurgião da trama das 19h tem do irmão, Caíque (Sergio Guizé), observa Thiago, é proveniente de “uma insegurança afetiva muito grande”.
— O fato de ser filho adotivo e ter sido rejeitado algumas vezes gerou nele os sentimentos de inveja e competição. A vida do Marcos é uma sucessão de derrotas para o Caíque. E ter perdido a noiva (Laura, interpretada por Nathalia) para ele foi só um agravante. Mas me parece que o Marcos não ama essa mulher. Ele a quer por um motivo que a gente saberá em breve — faz mistério.
O ator conta ter constatado recentemente que relações como a de Marcos e Caíque são comuns também fora da ficção.
— Outro dia, um conhecido me disse: “Minha relação com meu irmão é assim, essa é a história da minha vida”. O cara estava bem emocionado.
Competição dentro de casa, no entanto, é algo que Thiago desconhece. Segundo ele, seu relacionamento com a irmã, a jornalista Juliana Lacerda, de 34 anos, sempre foi de “proximidade e muito afeto”.
— Na infância foi difícil, a gente brigava muito. Ela nunca fugiu da raia, era um enfrentamento curioso. Até que eu percebi que as coisas não poderiam continuar assim. Mas sempre fomos muito amigos, mesmo quando brigávamos. E, com o tempo, desenvolvi uma relação paternal com ela. Hoje ela cuida um pouquinho de mim também — admite, rindo.
A exemplo do pai, Jadyr Lacerda, inclusive, Thiago queria mesmo era ser gerente de banco:
— Achava o máximo ele de terno atendendo as pessoas. Meu pai era respeitado, tinha um status, emprego estável. Fui fazer faculdade de economia por causa disso e só fui fazer teatro porque eu era tímido para ser um gerente de banco. Alguém deve ter me olhado e dito: “Não, filho, sai daí, vai atuar.”
Thiago diz ser adepto de todas as religiões, mas não praticar nenhuma delas. No entanto, afirma acreditar em vidas passadas:
— Não acho que a vida termina nem começou aqui. Talvez hoje eu esteja colhendo os frutos que eu plantei em outras vidas, ou de alguém que mereça mais do que eu, o meu pai, a minha mãe, a minha mulher, um dos meus filhos.
O ator é pai de Gael, de 7 anos, Cora, de 4, e de Pilar, de oito meses, frutos de seu casamento de quase oito anos com a atriz Vanessa Lóes.
— Eu e Vanessa temos falado muito sobre a ideia de aceitar as crianças como elas são. Se livrar das nossas expectativas sobre eles, o que significa ouvi-los mais. Mas não acho que eu consiga ser o que eu espero. Sinto muita culpa. No início das férias, Gael estava no nosso sítio, em Minas, e me perguntou por telefone: “Pai, cadê você? No Rio? Ainda?” Eu estava gravando a novela — relata.
Carioca nascido na Tijuca, Thiago lembra que, na infância e em parte da adolescência, só viajava com a família para Minas Gerais, estado de seus pais:
— Meu pai é mineiro clássico. Então, férias? Minas! Feriado prolongado? Minas! Só mudamos o roteiro quando eu já tinha 15 anos, fomos para um hotel fazenda em Teresópolis.
Hoje, Thiago diz semear “coisas para daqui a 20 anos”:
— A minha vida é uma grande correria e um improviso. Minha preocupação é achar tempo para mim, para as crianças, para o trabalho. Aos 60, quero estar fazendo as coisas com muita calma.
Até lá, o ator quer “muito trabalho”. Já projeta para o segundo semestre deste ano dar sequência a “Hamlet”, peça que protagonizou entre 2012 e 2013:
— Eu e o (diretor) Ron Daniels decidimos encenar outros dois espetáculos de Shakespeare ao mesmo tempo: “Macbeth” e “Medida por medida”.
Outro projeto de Thiago — que “talvez demore” — é integrar o elenco de um musical:
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— Não sou afinado ainda, mas vou estudar. Sou determinado, capricorniano. Um dia vou cantar em cena para as pessoas.
Campeão de natação na adolescência, o ator sabe bem o que é disciplina. Inclusive à mesa.
— Faço a minha dieta. Me conheço, sei onde consigo ir. Meu metabolismo aos 36 anos está mudando, mas como eu fui atleta, meu corpo tem uma memória muito legal — diz o ator, que recentemente perdeu 7kg (está com 100 kg) e garante não se importar com comentários sobre o seu peso. — O importante é que as pessoas me respeitem e respeitem as minhas escolhas.

Fonte: OGlobo

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